Fuga.

Olha Maria, é normal que o desespero te preencha agora, mas lhe imploro: não seque esse teu poço de vontade de viver, não tão cedo. Não precisas de mim pra tocar tua vida, não precisas de ninguém exceto teus próprios pés. Não deixe que tua sombra te engane, sombras são traiçoeiras.
Sabe Maria, eu bem queria permanecer aqui do teu lado, continuar te dando colo no final da tarde enquanto assistimos o sol se pôr junto com mais um dia, mas não posso prosseguir com esse teatro sem atos felizes. Os ponteiros giram e giram e giram e eu não saio do lugar, o tempo passa sem minha vida acompanhar. Não que eu não queira mais viver, mas essa vida já cansou de mim. É como se eu não fosse o ator certo, como se eu sempre demorasse mais para decorar as falas, e você sabe Maria, improviso não é o meu forte.
Um velho amigo me disse que temos nosso futuro traçado, como arquitetos planejam prédios e escritores criam estórias, e que nada nunca sai diferente do que nos foi previsto. Mas sabe, Maria, eu não concordo. Se estou onde estou, a culpa é minha e de mais ninguém. Todos têm chances de contornar os obstáculos, mas nem todos se saem muito bem nessa tarefa, e eu fui um desses. Isso não é um pedido de piedade, Maria, é só uma mera tentativa de te explicar o que está acontecendo aqui.
Só te peço para que não me encare como um perdedor se um dia nos encontrarmos novamente em algum canto desse mundo ou de outro.
Eu esperava mais disso, sabe Maria? Esperava que a vida fosse igual aos sonhos que temos quando crianças. Esperava que pudéssemos ser livres, que pudéssemos ser donos do nosso nariz uma vez que atingíssemos a maioridade. Bobagem. Quanto mais o tempo passa, mais deixamos de ser quem realmente somos para que possamos nos encaixar nesse mundo. É como se passássemos por um rígido processo de adaptação social onde aprendemos tudo que devemos fazer na hora certa.
E eu reprovei Maria, reprovei na vida. Reprovei quando eu tinha que sorrir e só queria chorar, quando eu tinha que chorar e nem me importava, quando eu não podia me importar e acabava me preocupando. Mas nem tudo foi perdido, nem tudo foi em vão: tive-te Maria, e ter-te-ei pra sempre em meu peito.
É tarde Maria, anjos batem à minha porta e já não posso evitar. Sinto a brisa enquanto me deito em meio às lágrimas agora secas. Nunca fui bom com despedidas, por isso deixo-lhe esta carta de adeus. E por mais que doa em ti, Maria, ou por mais que doa em mim, não se esqueça de viver a vida como lhe foi ensinado, como você sempre fez.
Não termine como eu, Maria, mas venha me visitar um dia.

1 comentários:

Anônimo 1 de novembro de 2011 03:04  

talvez não seja desespero e sim amor de verdade.

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“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”